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Iniciação acadêmica

Em 1959 Arouca presta vestibular para medicina no campus da Universidade de São Paulo (USP) em Ribeirão Preto. Passa, mas não começa bem. Cheio de dúvidas, saía de casa com caderno debaixo do braço para enganar os pais, mas ia para o bosque municipal junto com colegas de USP. “Íamos lá jogar bocha e tomar caipirinha com os idosos e desempregados da cidade”, diverte-se Barbieri. “Além disso, no fundo do bosque havia um colégio de moças: então, subindo o muro, via-se as meninas fazendo exercícios físicos”. Eram médicos poetas. Eram boêmios (e nunca deixariam de ser). Estava criada a Ordem do Cão. Eram cinco amigos inseparáveis: Sergio “Bandido” Arouca, Antônio “Totó” Barbieri, Geraldo “Pratinha” da Costa e Silva, Carlos Alberto “Cão” Normanha e Luís Carlos “Chico Veio” Mantovani (filho daquele sapateiro).

Apesar do divertimento, aqueles tempos representavam a angústia natural de jovens mergulhados em dúvidas com relação ao futuro. Arouca tranca a faculdade, mas volta logo a seguir, quando o centro acadêmico de medicina começa a atrair sua veia política. Queria ser político, mais do que médico. A Revolução Cubana acabara de ocorrer (1959), Jânio renunciara (1961) e o então vice-presidente, João Goulart, identificado com as esquerdas, encontrava dificuldades para governar, devido à oposição das elites e de setores intervencionistas das forças armadas. Na cabeça de Arouca, a medicina servia apenas como sustentáculo para que ele pudesse investir todo o seu tempo livre em causas mais importantes.

Também eram tempos de primeiros amores. Namorara quase que todo o período de colégio com uma menina chamada Ritinha, mas foi na universidade onde conheceu a primeira de suas três esposas. Anamaria Tambellini conquistara seu coração. Anos depois, seria ela a mãe de seu primeiro filho, Pedro (depois se seguiriam três meninas com sua segunda esposa, Sarah Escorel). “O Arouca tinha uma facilidade para atrair as pessoas. Ele era feio, né? Mas ficava bonito quando falava”, explica Barbieri e completa: “e assim, não deixou só os três casamentos, mas várias viúvas afetivas por aí”.

No Partidão, destaca-se a influência de um jovem jornalista tanto sobre Arouca como nos demais jovens: era Luciano Lepera. “Ele era uns dez anos mais velho do que nós e um sujeito que a gente sempre respeitou muito”, completa Barbieri. Lepera ergue a bandeira da campanha do “Petróleo é nosso”, e manda construir uma torre simbólica na Praça 15 de Novembro, lidera discussões no chamado “senadinho” – em frente a cafeteria A Única, onde todos os cidadãos de Ribeirão palpitavam sobre política – e finalmente, candidata-se a deputado estadual pelo PCB e vence. “A gente pichava a rua para a campanha dele. Para nós, era quem mais se aproximava, em conceito e gesto, do ‘Che’ Guevara”, lembra Barbieri.

Arouca torna-se ativo no Centro Acadêmico Rocha Lima da medicina e, a partir dos anos 60, os comunistas exerceriam lá uma liderança constante. Sua afetividade transbordava em seu jeito de fazer política. Instruídos pelas lideranças do PCB, nos debates estudantis, primeiro entrava Barbieri e agitava, acalorava o ambiente, depois vinha a fala mansa e firme de Arouca. Com sua simpatia, aplacava os ânimos, acalmava a oposição e conquistava a platéia. Havia aprendido bem as lições de como argumentar nos parlamentos do Otoniel Mota. “Arouca ia do político ao poeta com uma rapidez que só os privilegiados possuem”, recorda Barbieri. “Era capaz de virar uma assembléia com uma simples frase”. Mas continuava a não dar a devida atenção ao curso de medicina: “havia um discurso na época que para ser líder tinha que ser mau aluno”, explica Barbieri. No entanto, por influência tanto de Lepera, quanto dos “velhos” do Partidão, Arouca passa a dedicar-se mais aos estudos. Era preciso dar o exemplo, era preciso mostrar que “comunista não era vagabundo”, era necessário ser o melhor aluno e tanto Arouca quanto Barbieri e outros não decepcionam.

Arouca muda sua postura na academia. Graças à forte influência de um carismático professor chamado José Lima Pedreira de Freitas, apaixona-se pela medicina preventiva. Finalmente conseguia aliar seus ideais políticos com a profissão que escolhera. Na própria USP, junta-se à Liga Brasileira de Combate à Moléstia de Chagas e passa a freqüentar uma pequena cidade, próxima a Ribeirão, chamada Cássia dos Coqueiros. Tamanho era o número de casos da doença de Chagas naquele local que “os próprios moradores brincavam dizendo que um jogo de futebol tinha que começar com 17 ou 18 jogadores, porque perigava chegar ao final sem quorum”, recordava o próprio Arouca. É também na Liga que conhece outro de seus gurus e grande amigo para o resto da vida: o professor José Romero Teruel.

É Teruel que mostra definitivamente a Arouca que é possível continuar sua luta individual e coletiva como marxista, transformar a sociedade e usar a profissão médica para atingir tais objetivos. “E aí que o Sergio se define como militante da medicina preventivista, que não tinha ainda a característica de movimento sanitarista e que no futuro aparecerá mais com o próprio Arouca assumindo sua liderança, já nos anos 80”, explica Barbieri. A medicina preventiva e o sanitarismo conquistavam definitivamente o coração de Arouca, e essa relação amorosa duraria para o resto de sua vida.

Arouca chegava a dar cerca de 25 plantões por mês, em inúmeras emergências e postos de saúde e nas mais diversas áreas, tais como ginecologia, ortopedia, pediatria, psiquiatria etc. Apesar da redescoberta do amor pela medicina, Arouca não deixa de lado as atividades do Centro Acadêmico. Escrevia artigos para o jornal do Centro Acadêmico, O Esteto. Por fim, junto com Barbieri e Oduvaldo Viana Filho (que escreveria a série de sucesso, A grande família), criava o Centro Popular de Cultura (CPC).

O CPC era reflexo da atmosfera de renovação cultural que varria o Brasil nos anos 60. A bossa nova mudava a harmonia, a melodia e o jeito de tocar o violão. Compositores marginais, como Cartola, passavam a ser valorizados. Surge o Cinema Novo, que leva às classes média e alta as realidades do Sertão e da pobreza. Surge o Teatro do Oprimido. Surge uma nova poesia, nas estrofes de Ferreira Gullar, João Cabral de Melo Neto e muitos outros. Os estudantes se incendeiam: os CPCs pipocam pelas universidades brasileiras e Ribeirão não fica fora da festa.

O CPC de Ribeirão levou gente como Chico Buarque, Caetano Veloso, Baden Powell e Telma Soares para a cidade. Uma das visitas mais marcantes, no entanto, foi a de Vinícius de Moraes. “Quando ele viu os camponeses, ficou em estado e graça. Correu para abraçá-los. O Vinícius abraçando os camponeses, todos sujos de terra e fuligem...”, emociona-se Nacarato ao relembrar a estadia do “poetinha”, que retratava fielmente os anseios daquela juventude por um Brasil diferente. E claro, não faltavam os boatos: corria pela cidade que Arouca e Vinícius, sozinhos, teriam bebido juntos duas garrafas de uísque em uma só noite. Outros dão conta de que Arouca não era bom de bebida e que seria Vinícius sozinho quem teria secado as garrafas.

Porém, o clima de mudança, contestação e alegria, nos mais diversos setores da sociedade, já começara a incomodar os conservadores do país. Já em 1961 alguns militares haviam ameaçado se sublevar após a renuncia do presidente Jânio Quadros. E no dia 1º de abril de 1964 acaba acontecendo um dos episódios mais sombrios da história brasileira: o golpe militar. Direitos políticos são cassados, a imunidade parlamentar de políticos de oposição é suspensa, acaba o multipartidarismo e o marechal Castello Branco é indicado presidente.

Lepera tem seu mandato cassado, a torre de petróleo da Praça 15 é demolida e as esperanças dos estudantes por um país mais livre e democrático começam a ser paulatinamente destruídas. “Nessa época eles [o grupo de Arouca] passaram a ser conhecidos na cidade como os ‘bocas negras’, por sempre estarem se encontrando em cantos escuros e sussurrando baixinho”, lembra Sérgio da Fonseca. Tenta-se de tudo para enfrentar a ditadura, protestos, panfletagens, cantorias. Mas os esforços vão se tornando inúteis e o único efeito é o endurecimento dos golpistas.

O Centro Acadêmico torna-se clandestino e muda de endereço diversas vezes. O Esteto já não podia expressar o livre pensar de quem o escrevia e vários desapareceram – ainda hoje, nos arquivos do atual Centro Acadêmico Rocha Lima, há um vão entre os anos de 1964 e 1978, com quase nenhum exemplar guardado. Os universitários organizariam diversas formas de protesto e resistência contra os militares e a mais notória delas foi uma passeata ocorrida em 1966. Os estudantes desfilavam pelas ruas e recebiam chuvas de papel picado vindas dos prédios. A repressão responde com brutalidade, 70 estudantes são presos. Um professor da USP, chamado Zago, é preso e mordido por cães. Os estudantes tomam o Hospital das Clínicas de Ribeirão Preto e passam lá a madrugada.

 

 

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